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Ninguém é super

7:25 PM


Eu estava em Londres, caminhando na minha última manhã naquela cidade turbulenta, seguindo as instruções que o Google Maps me dava, naquela altura com um nível razoável de fome. Mas antes de encontrar qualquer coisa pra comer, encontrei o Museu de Ciências de Londres.
“A história do avião? Uhul!”, “Vejam só, a primeira máquina já inventada!”, “Um saguão inteiro só pra história das descobertas astronômicas?!” devem ter durado uma meia hora. Até que cheguei na área da ciência que fala não de máquinas, mas de pessoas. E aí eu perdi a noção do tempo. Lá pelo meio eu acho um vidro enorme com um parágrafo escrito, cuja todas as tentativas de fotografar falharam por causa do reflexo do mural luminoso de um cérebro atrás, mas que dizia:
“Who am I? I am human
Everything about you is amazing. You have a great memory, an astonishing ability to learn and your way with words are matchless. The study of human brains reveals what makes you special. You have so much in common with everyone else, but because your brain is shaped by your experience of life, you are also unique.”
Não sou uma boa tradutora, mas em português ficaria aproximadamente:

“Quem sou eu? Eu sou humano
Tudo em você é incrível. Você tem uma ótima memória, uma espantosa habilidade para aprender e seu jeito com as palavras é incomparável. O estudo dos cérebros humanos revela o que faz você especial. Você tem tanto em comum com qualquer um, mas porque seu cérebro é moldado pelas suas experiências de vida, você também é único.”



 Minha primeira reação foi a de querer beijar o autor da frase por ter escrito algo tão bonito. A segunda foi a de imprimir o texto e sair distribuindo pras pessoas a rua. Lamentavelmente, a maioria acabaria sendo pisoteada no chão, logo desisti.
A curiosidade humana sobre si mesmo é algo tão comum quanto natural. E não falo nem de um nível espiritual como as questões “De onde vim e pra onde vou?” que geralmente atribuem às religiões. É um simples “Do que eu gosto? O que eu odeio? Porquê gosto ou odeio? Porquê reajo dessa forma?”. E se não fossem perguntas tão comuns, horóscopos, testes de personalidade e “que personagem é você em ___” não seriam tão comuns. Quase diria de que é um sinal de boa saúde psicológica.
Como pessoas podem ser únicas se todas elas são pessoas?
Algumas vezes já disseram a frase do Flecha, no filme Os Incríveis, como resposta. A mãe de Flecha diz pro pequeno “Todos são especiais, Flecha”, e o filho prontamente responde “Que é outra forma de dizer que ninguém é”. Mais tarde no mesmo filme, podemos encontrar nosso vilão dizendo “Qualquer um pode ser super! E quando todos são super... ninguém mais será”.
Essas frases sempre me causaram um profundo aborrecimento. Como se o que eu tivesse de especial fosse o mesmo que todos tivessem – ou ainda pior, como se esse “especial”, esse “super” fosse algo que todos conseguissem ver e que todos concordassem ser super. Quer dizer, isso não fazia sentido na minha cabeça nem em teoria.
Na prática todos sabemos: Sim, todos temos algo de especial, não só um algo, mas muitos deles. E eles são amados e odiados pelas pessoas ao nosso redor, a maioria é indiferente a esse super, outros invejam, outros te adoram exatamente por isso. Como algo que pode ser visto e interpretado de tantas diferentes formas pode ser algo que te torne comum? Algo que te torne... não-especial.
E é justamente isso que te faz, que nos faz especial: As nossas experiências de vida. É isso que nos torna diferente de todos já que ninguém nesse mundo pode possivelmente ter tido a mesma vida, as mesmas chances, mesmas oportunidades e mesmas dores que nós pra acabar se transformando em quem nós somos. O “especial” de cada um muitas vezes é confundido com talentos, com habilidades, mesmo na verdade significando: você.
Sim, somos todos humanos e por tanto sujeitos a falhas. Temos todos corpos estruturalmente semelhantes, somos todos inseridos dentro de uma sociedade e cultura, mas isso não significa que todos nós reagimos da mesma forma a todos os tipos de acontecimentos. Não somos um a cópia dos outros, nem fisicamente nem psicologicamente.

É bem verdade que não somos nós que definimos o que temos de especial. Pra ser “especial” é necessário haver comparação com outras pessoas, com muitas outras pessoas, é necessário conhecer o padrão primeiro. Mas é justamente aí que os mais observadores encontram um problema: não existe padrão. Muitos caminham, mas não todos do mesmo jeito. Muitos escrevem e ainda assim, cada um tem uma caligrafia diferente. No final das contas, quem somos influencia em tudo.

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