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Nas ilusões de quem vê

8:18 PM



Os pelos arrepiaram, a pele enrugou de frio e aquela ânsia passando pela garganta me fez acordar e correr pro banheiro pra vomitar. Começava a pior semana que eu tive até agora na vida, meu corpo dizia que estava no limite, que eu não poderia continuar levando a vida daquele jeito. Era o começo de uma semana pavorosa, mas recém a metade daquele sofrimento.
Eu nunca tive problemas de alimentação até meus 19 anos, comia de tudo e me gabava de continuar a vida com o mesmo peso. Ouvi a vida inteira pessoas maravilhadas com minha cintura, peso e altura, transformando meu corpo em algo imaculado. Também nunca reclamei, aparentemente eu conseguia manter um corpo dentro do estereótipo de beleza sem muito esforço – esforço algum, na verdade. Até então eu não me preocupava com o que comia ou com o que engordava.

No entanto a essa altura meu emocional ficava doente. Por diversos motivos eu vi meu emocional, outrora sadio e sempre revigorado, decaindo e se quebrando ao ponto de se quebrar em cacos. Depressão ainda em 2014 é uma doença mal entendida, e aqueles que a mal entendem dizem absurdos dos doentes, chegando ao ponto de ser cruel. Ouvi de amigos que isso era falta do que fazer, falta de louça pra lavar, excesso de tempo livre e assim até o ponto de sentir que nenhum deles queria continuar a conversar com alguém entediante. Oras, eu trabalhava e tocava duas faculdades ao mesmo tempo, onde estaria meu excesso de tempo livre, falta de louça pra lavar ou falta do que fazer, então? Via meu desempenho nos três caindo e caindo, minha capacidade de concentração desaparecendo e minha vontade de sair da cama não acordando mais. De brinde, parei de sentir fome.
Até hoje quando conto essa história eu ouço "mas que maravilha!" como se isso fosse algo bom – dependendo do meu humor eu tenho que controlar a vontade de chorar ou a de esbofetear a cara de quem disse. No começo eu perdi 3kg em um mês, não conseguia mais encher um prato ou mesmo comer um inteiro. Estava eu ali tendo que lidar com estresse, minha autoestima esmagada, minha incapacidade de concentração, a batalha diária pra sair da cama e agora minha falta de apetite. Eu odiava isso, eu sinceramente odiava tudo isso com todas as minhas forças. Seis meses passaram e eu tinha perdido 5kg. Sair da cama já não era uma questão só de vontade, eu não tinha força pra isso. Aos poucos levantar copos de vidro passaram a ser musculações, deixar meu braço erguido tempo o suficiente pra beber o copo inteiro me deixava cansada como ter corrido em uma maratona. Minhas costas foram se curvando pela falta de força e a mochila pesada de uma estudante de forma que até hoje não se recuperaram, facilmente pegava qualquer gripe, facilmente me machucava, dificilmente dormia e mais dificilmente ainda acordava.
Dez meses passaram com 10kg, e então meu corpo entrou em colapso. Acordei no meio da madrugada tropeçando pra fora da cama e torcendo pra dar tempo de chegar no vaso antes de começar a vomitar. E assim foi a semana inteira. Nada parava no meu estômago, nem sopa, nem água nem nada. Essa fragilidade bagunçou todo o meu organismo, por causa desse colapso minha gastrite nervosa virou gastrite crônica e a intolerância à lactose do meu pai precocemente acordou em mim. Fiz muitos exames e comecei uma dieta com uma nutricionista – uma dieta pra engordar.
Enquanto isso eu continuava me achando o ser mais monstruoso do mundo. Nada no mundo me causava mais dor do que colocar uma regata e ver a finura óssea dos meus braços – praticamente não tinha mais músculos. Usar vestidos eram uma tortura. Aí eu chegava pra trabalhar e ouvia minha chefe falar "Magra como sempre, heim Melina? Que bom! Tanta gente que queria ser assim também!". Não, ninguém gostaria de ser daquela forma – aquilo era uma doença, meu corpo e meu emocional estavam doentes, eu era pouco mais viva do que uma morta-viva e pouco mais magra do que um defunto, meu corpo tinha o formato do meu esqueleto, gordura alguma sobre aquilo, quem que gostaria de ser assim? "Ah, mas eu adoro clavículas aparecendo!" clavículas ok, sem problemas, mas eu praticamente estava virada em clavículas, não tinha nada muito além de clavículas e ossos do ombro pra se ver quando eu usava uma regata.
É tão absurdo quanto revoltante. Aquele tipo de magreza nunca foi saudável, pelo contrário, é justamente o nível que pessoa alguma desse mundo deveria chegar. Ainda assim as pessoas olhavam pra mim e demonstravam inveja ou gostar, poucas se escandalizavam e se preocupavam como realmente deveriam. Eu não queria estar daquele jeito, eu odiava estar doente e ao redor eu ouvia "Mas veja só Melina, você está linda assim tão doentezinha!".
Eu demorei 2 anos pra recuperar meu peso e muito mais importante do que foi a ajuda nutricional foi a psicológica. Sim, comer corretamente é importante, mas toda disfunção na fome é, antes de tudo emocional. Eu não sentia fome por me sentir um lixo, não por qualquer disfunção hormonal. Hoje já aprendi a viver sem muito leite e sem irritar minha gastrite, me dei inclusive ao luxo de não comer mais carne. Percebi que o mais importante pra isso foi a disciplina de criar horários fixos de alimentação e sono, além de manter o bom humor. Ainda sou propensa a perder peso por qualquer alteração no meu humor, seja por nervosismo, menstruação ou irritabilidade, mas já sei lidar com isso. O que boa parte do mundo ainda não aprendeu é que magreza não é sinônimo de saúde e que beleza não é medida por um padrão universal.
Ainda mês passado contei pra uma aluna sobre quão suscetível a perder a fome eu sou por qualquer desregularidade emocional. Ela me respondeu um audível "Nossa, que inveja!". A beleza nas ilusões de quem vê.



Fontes:
Imagem original - http://impersonaltag.tumblr.com/post/26176054236/laco-may-2012-aquarellable-pencil-on-canson-a4 

Identidade

Meu nome é Melina e eu gosto de branco.

4:51 PM


Conte um pouco sobre você” um entrevistador qualquer pergunta. Não importa quem fez a pergunta, um professor, a mulher da entrevista de emprego, um colega de trabalho, um amigo antigo ou a caixa de diálogo na internet te pedindo pra preencher um quadrinho com 144 caracteres ou mais sobre o que tu pensa sobre ti mesmo. Qualquer pessoa começa a resposta com “erm...”.
É incrível como 20, 30, mesmo 50 anos parecem sumir da tua cabeça quando te pedem pra fazer uma curta autobiografia introdutória e básica. Subitamente tu esquece quem é e o que tu fez todos esses anos com a tua vida – subitamente tu é uma pessoa sentada numa cadeirinha, que sabe tudo sobre si mesmo, mas precisa de um ou dois segundos pra lembrar quem é. E mais dois ou três segundos pra formular uma frase que tem 90% de chances de começar com “Bom, meu nome é <insira nome aqui>, tenho <insira idade aqui> anos estudo/trabalho <insira profissão aqui>”.
Isso me irrita profundamente.
Só consegue responder automaticamente e sem suspirar aqueles que já estão acostumados a se introduzirem, que estão com o automático ligado. E o que o automático diz? Nome, idade, profissão. Ou seja, tu é um currículo.
Só que ninguém é um currículo. Pessoas são amores e desamores, são cores e pratos favoritos, são procrastinações e hobbys, penteados e calçados, interesses e desinteresses, amizades e inimizades – pessoas são muito mais do aquilo que fazem pra ganhar dinheiro. E lá está o trio, contado quem é, como ganha dinheiro e como conseguiu tudo isso em tão pouco tempo.
O que me irrita de verdade não é o fato de o automático ser um currículo, mas o fato de que nem eu, mesmo irritada, não possa escapar de acabar contando como ganho dinheiro já que inevitavelmente essa é a informação que vai me tornar uma pessoa X ou Y aos olhos de quem me ouve. No final das contas é só isso que querem saber.
Poderia contar sobre os livros que gosto de ler, os que já li e os que lerei – o que por si só já contaria mais sobre mim do que o que curso na faculdade. Gostos musicais, gosto culinário, explicar a escolha da roupa, descrever a própria casa, falar sobre o que fez no último fim de semana, o que eu faria se ganhasse na loteria e lá vamos nós, são todos tópicos que no final falam mais sobre nós do que o nosso tipo de trabalho.
Nós não somos o que nós trabalhamos. Ninguém é um empresário, pessoas trabalham como empresários. Assim também ninguém é caixa de supermercado ou funcionário público da mesma forma que ninguém é administração e sim se estuda administração. No final ninguém fica 24 horas analisando processos – saindo do trabalho tu te torna pedestre e então passageiro ou motorista. Chegando em casa pode ser pai, mãe, marido, filha, sobrinho ou tia. Mai tarde tu te torna amigo, bisneto, eletricista de chuveiros próprios, cozinheiro, faxineiro, telespectador, usuário de facebook, internauta, bela adormecida e acorda como barista preparando o próprio café pro começar do dia. Não ser pago ou fazer por benefício próprio as festas do próprio aniversário não quer dizer que tu não tenha sido o fotógrafo da noite, ou o cozinheiro dos sanduíches, ou o amigo do cara que bebeu demais.
Nós somos muito mais do pelo o que somos pagos para fazer. Pessoas, acima de tudo, e muito mais importante do que como ganhamos dinheiro, temos personalidades e histórias próprias, habilidades diferenciadas e gostos indiscutíveis. Quantas vezes nós mesmos não estamos passando por uma avalanche emocional em um lugar público quando surge aquela possibilidade de as outras pessoas ao teu redor também estarem passando por situações parecidas? Todos tem sentimentos, no final, isso significa que hora ou outra todos sentirão algo ruim em maior ou menor grau – e é impossível que naquela multidão todos sejam apenas secretários ou acionistas, que ninguém também seja divorciado, depressivo, recém-solteiro, viúvo ou portador de alguma doença.
E é exatamente isso que me irrita: Quando nos apresentamos como jornalistas, técnicos de informática ou padres, assim pra sempre seremos vistos. Sem outra personalidade a não ser aquela estereotipada de cada profissão – sem direito a humanidade, sem sofrer ou ser feliz. Como se fossemos robôs exercendo a profissão que nos foi dada dia e noite, sem dormir, ir ao cinema, comprar roupas, escutar música ou escrever em um blog de hospedagem gratuita.
É mais fácil” a maioria responderá. É mais fácil quando se tem uma fórmula de apresentação que contém exatamente aquilo que os outros querem saber, informações rápidas e práticas, e que causam exatamente a impressão nos outros que tu quer (se tu gosta da forma que trabalha). Evidente que é mais fácil, mas não necessário.
No final a escolha é tua. Quer ser visto como o funcionário do mês integralmente por familiares e amigos ou visto como outra pessoa, e por tanto passível de todos os sentimentos e habilidades que todas as pessoas tem, por aqueles ao teu redor?


“Tudo deve ser o mais simples possível. Mas não simplificado”
- Einstein. 

Identidade

Ninguém é super

7:25 PM


Eu estava em Londres, caminhando na minha última manhã naquela cidade turbulenta, seguindo as instruções que o Google Maps me dava, naquela altura com um nível razoável de fome. Mas antes de encontrar qualquer coisa pra comer, encontrei o Museu de Ciências de Londres.
“A história do avião? Uhul!”, “Vejam só, a primeira máquina já inventada!”, “Um saguão inteiro só pra história das descobertas astronômicas?!” devem ter durado uma meia hora. Até que cheguei na área da ciência que fala não de máquinas, mas de pessoas. E aí eu perdi a noção do tempo. Lá pelo meio eu acho um vidro enorme com um parágrafo escrito, cuja todas as tentativas de fotografar falharam por causa do reflexo do mural luminoso de um cérebro atrás, mas que dizia:
“Who am I? I am human
Everything about you is amazing. You have a great memory, an astonishing ability to learn and your way with words are matchless. The study of human brains reveals what makes you special. You have so much in common with everyone else, but because your brain is shaped by your experience of life, you are also unique.”
Não sou uma boa tradutora, mas em português ficaria aproximadamente:

“Quem sou eu? Eu sou humano
Tudo em você é incrível. Você tem uma ótima memória, uma espantosa habilidade para aprender e seu jeito com as palavras é incomparável. O estudo dos cérebros humanos revela o que faz você especial. Você tem tanto em comum com qualquer um, mas porque seu cérebro é moldado pelas suas experiências de vida, você também é único.”



 Minha primeira reação foi a de querer beijar o autor da frase por ter escrito algo tão bonito. A segunda foi a de imprimir o texto e sair distribuindo pras pessoas a rua. Lamentavelmente, a maioria acabaria sendo pisoteada no chão, logo desisti.
A curiosidade humana sobre si mesmo é algo tão comum quanto natural. E não falo nem de um nível espiritual como as questões “De onde vim e pra onde vou?” que geralmente atribuem às religiões. É um simples “Do que eu gosto? O que eu odeio? Porquê gosto ou odeio? Porquê reajo dessa forma?”. E se não fossem perguntas tão comuns, horóscopos, testes de personalidade e “que personagem é você em ___” não seriam tão comuns. Quase diria de que é um sinal de boa saúde psicológica.
Como pessoas podem ser únicas se todas elas são pessoas?
Algumas vezes já disseram a frase do Flecha, no filme Os Incríveis, como resposta. A mãe de Flecha diz pro pequeno “Todos são especiais, Flecha”, e o filho prontamente responde “Que é outra forma de dizer que ninguém é”. Mais tarde no mesmo filme, podemos encontrar nosso vilão dizendo “Qualquer um pode ser super! E quando todos são super... ninguém mais será”.
Essas frases sempre me causaram um profundo aborrecimento. Como se o que eu tivesse de especial fosse o mesmo que todos tivessem – ou ainda pior, como se esse “especial”, esse “super” fosse algo que todos conseguissem ver e que todos concordassem ser super. Quer dizer, isso não fazia sentido na minha cabeça nem em teoria.
Na prática todos sabemos: Sim, todos temos algo de especial, não só um algo, mas muitos deles. E eles são amados e odiados pelas pessoas ao nosso redor, a maioria é indiferente a esse super, outros invejam, outros te adoram exatamente por isso. Como algo que pode ser visto e interpretado de tantas diferentes formas pode ser algo que te torne comum? Algo que te torne... não-especial.
E é justamente isso que te faz, que nos faz especial: As nossas experiências de vida. É isso que nos torna diferente de todos já que ninguém nesse mundo pode possivelmente ter tido a mesma vida, as mesmas chances, mesmas oportunidades e mesmas dores que nós pra acabar se transformando em quem nós somos. O “especial” de cada um muitas vezes é confundido com talentos, com habilidades, mesmo na verdade significando: você.
Sim, somos todos humanos e por tanto sujeitos a falhas. Temos todos corpos estruturalmente semelhantes, somos todos inseridos dentro de uma sociedade e cultura, mas isso não significa que todos nós reagimos da mesma forma a todos os tipos de acontecimentos. Não somos um a cópia dos outros, nem fisicamente nem psicologicamente.

É bem verdade que não somos nós que definimos o que temos de especial. Pra ser “especial” é necessário haver comparação com outras pessoas, com muitas outras pessoas, é necessário conhecer o padrão primeiro. Mas é justamente aí que os mais observadores encontram um problema: não existe padrão. Muitos caminham, mas não todos do mesmo jeito. Muitos escrevem e ainda assim, cada um tem uma caligrafia diferente. No final das contas, quem somos influencia em tudo.

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