Meu nome é Melina e eu gosto de branco.
4:51 PM“Conte um pouco sobre você” um entrevistador qualquer pergunta. Não importa quem fez a pergunta, um professor, a mulher da entrevista de emprego, um colega de trabalho, um amigo antigo ou a caixa de diálogo na internet te pedindo pra preencher um quadrinho com 144 caracteres ou mais sobre o que tu pensa sobre ti mesmo. Qualquer pessoa começa a resposta com “erm...”.
É incrível como 20, 30, mesmo 50 anos parecem sumir da tua
cabeça quando te pedem pra fazer uma curta autobiografia introdutória e básica.
Subitamente tu esquece quem é e o que tu fez todos esses anos com a tua vida – subitamente
tu é uma pessoa sentada numa cadeirinha, que sabe tudo sobre si mesmo, mas
precisa de um ou dois segundos pra lembrar quem é. E mais dois ou três segundos
pra formular uma frase que tem 90% de chances de começar com “Bom, meu nome é
<insira nome aqui>, tenho <insira idade aqui> anos estudo/trabalho
<insira profissão aqui>”.
Isso me irrita profundamente.
Só consegue responder automaticamente e sem suspirar aqueles
que já estão acostumados a se introduzirem, que estão com o automático
ligado. E o que o automático diz? Nome, idade, profissão. Ou seja, tu é um
currículo.
Só que ninguém é um currículo. Pessoas são amores e
desamores, são cores e pratos favoritos, são procrastinações e hobbys,
penteados e calçados, interesses e desinteresses, amizades e inimizades –
pessoas são muito mais do aquilo que fazem pra ganhar dinheiro. E lá está o
trio, contado quem é, como ganha dinheiro e como conseguiu tudo isso em tão
pouco tempo.
O que me irrita de verdade não é o fato de o automático ser
um currículo, mas o fato de que nem eu, mesmo irritada, não possa escapar de
acabar contando como ganho dinheiro já que inevitavelmente essa é a informação
que vai me tornar uma pessoa X ou Y aos olhos de quem me ouve. No final das
contas é só isso que querem saber.
Poderia contar sobre os livros que gosto de ler, os que já
li e os que lerei – o que por si só já contaria mais sobre mim do que o que
curso na faculdade. Gostos musicais, gosto culinário, explicar a escolha da
roupa, descrever a própria casa, falar sobre o que fez no último fim de semana,
o que eu faria se ganhasse na loteria e lá vamos nós, são todos tópicos que no
final falam mais sobre nós do que o nosso tipo de trabalho.
Nós não somos o que nós trabalhamos. Ninguém é um
empresário, pessoas trabalham como empresários. Assim também ninguém é caixa de
supermercado ou funcionário público da mesma forma que ninguém é administração
e sim se estuda administração. No final ninguém fica 24 horas analisando
processos – saindo do trabalho tu te torna pedestre e então passageiro ou
motorista. Chegando em casa pode ser pai, mãe, marido, filha, sobrinho ou tia.
Mai tarde tu te torna amigo, bisneto, eletricista de chuveiros próprios,
cozinheiro, faxineiro, telespectador, usuário de facebook, internauta, bela
adormecida e acorda como barista preparando o próprio café pro começar do dia.
Não ser pago ou fazer por benefício próprio as festas do próprio aniversário
não quer dizer que tu não tenha sido o fotógrafo da noite, ou o cozinheiro dos
sanduíches, ou o amigo do cara que bebeu demais.
Nós somos muito mais do pelo o que somos pagos para fazer.
Pessoas, acima de tudo, e muito mais importante do que como ganhamos dinheiro,
temos personalidades e histórias próprias, habilidades diferenciadas e gostos
indiscutíveis. Quantas vezes nós mesmos não estamos passando por uma avalanche
emocional em um lugar público quando surge aquela possibilidade de as outras
pessoas ao teu redor também estarem passando por situações parecidas? Todos tem
sentimentos, no final, isso significa que hora ou outra todos sentirão algo
ruim em maior ou menor grau – e é impossível que naquela multidão todos sejam
apenas secretários ou acionistas, que ninguém também seja divorciado,
depressivo, recém-solteiro, viúvo ou portador de alguma doença.
E é exatamente isso que me irrita: Quando nos apresentamos
como jornalistas, técnicos de informática ou padres, assim pra sempre seremos
vistos. Sem outra personalidade a não ser aquela estereotipada de cada
profissão – sem direito a humanidade, sem sofrer ou ser feliz. Como se fossemos
robôs exercendo a profissão que nos foi dada dia e noite, sem dormir, ir ao
cinema, comprar roupas, escutar música ou escrever em um blog de hospedagem
gratuita.
“É mais fácil” a maioria responderá. É mais fácil quando se
tem uma fórmula de apresentação que contém exatamente aquilo que os outros
querem saber, informações rápidas e práticas, e que causam exatamente a
impressão nos outros que tu quer (se tu gosta da forma que trabalha). Evidente
que é mais fácil, mas não necessário.
No final a escolha é tua. Quer ser visto como o funcionário
do mês integralmente por familiares e amigos ou visto como outra pessoa, e por
tanto passível de todos os sentimentos e habilidades que todas as pessoas tem,
por aqueles ao teu redor?
“Tudo deve ser o mais simples possível. Mas não simplificado”
- Einstein.
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